Meu caro amigo,
se não fosse tão tarde, eu estava te ligando e falando as besteiras que costumamos conversar quando vem à nossa mente nos tempos em que éramos "boêmios. Mas como a noite vem pra rasgar os pensamentos dos bons poetas (e boêmios, preciso dizer também), tenho que me intensificar na minha caligrafia para que ela não saia feia, muito menos horrorosa.
Hoje eu estava lembrando d'um belo dia na aqui na rua quando percebi duas crianças brincando. Parecia uma cena tão simples porém me chamou atenção quando uma delas estava gritando "quem está vivo, venha ver!" e eu, você me conhece muito bem, meu amigo, vivinho que sou, fui olhar a cena que o belo guri estava fazendo. Cheguei perto. Sorri de lado. Olhei pra ele. Ele olhou pra mim. Nós nos olhamos. E eu respirei conforme a música soava nos meus ouvidos, ou melhor a risada dos dois era a música. A menina, talvez amiga ou irmã do guri, me olhava sorrindo com a mão na boca, meio perdida mas rindo e sor-rindo e eu, vivinho que sou, estava esperando pela cena que os vivos, como eu, deveria acompanhar.
Então, o belo guri de apenas 10 anos como mostra a face me olhou e disse: "senhor carismático - sim, meu amigo, esse belo menino de apenas 10 anos falava como gente grande - veja a mágica que vou fazer" e assim colocou a menina num pequeno skate, acredito que esse seja o nome, a não ser que por séculos que tenha se passado e aquela coisa pequena com quatro rodinhas tenha mudado de nome, e a empurrou para que os dois corressem e a menina fosse levada pelo pequeno transporte. Justo nessa hora o guri correu mais que o próprio skate e chegou antes da menina e a empurrou contra o destino que ela deveria ir. Eu olhei pra mim, olhei pra eles e olhei para a minha coragem e espantosa cara que fiz com intuito de ajudar a pequena menina morena de olhos castanhos, quase uma índia. Corri, corri, corri, quase chegando mas percebi que não andei nem meio caminho mas continuei. O menino ria, ria, ria, tanto ria que caiu no chão e os dois riram. A menina, ainda no chão, interpretava a cena tão bem que se ela disesse que era atriz, eu acreditaria. Olhou pra mim e fez uma cara de choro (pura interpretação, meu amigo, pura interpretação). Chorou como que se tivesse perdido algum brinquedo, roupa ou alguém muito importante. Meus olhos choravam junto sem saber o que estava acontecendo. O menino a empurrou. No princípio, sorrisos. No final, choro. O que fazer?
Foi aí que o pequeno guri me olhou e quando, finalmente, eu estava chegando bem pertinho dos dois, disse: "olhe bem" eu olhei. A menina, ainda com os olhos vermelhos e cheios de lágrimas, me olhou e olhou seu companheiro. Ele continuou: "pego a minha mão - ele levanta a sua pequena mão e eu por consequência fitei aquela pequena mão - e entrego para essa pequena menina, que é minha amiga e ofereço minha caridade de lhe ajudar nessa mal momento, porque no final de tudo isso não foi um pequeno entrave da vida, sabia doutor?" agora, meu caro amigo, eu sou dotor... Que vida é essa?! Vamos continuar com a lembrança...
Perguntei "como assim, guri?" e ele respondeu com os olhos sorrindo "empurrei a minha amiga e esperei que ela pegasse meu skate e fizesse o rumo dela, mas ela achou que o meu empurrão foi melhor que a própria decisão e viu que eu mesma interrompi a sua ida com um simples toque na sua barriga e ela caiu no chão. Isso significa muito pra mim porque eu sei que ela vai casar comigo." Olhei, respirei e finalmente eu criei um sorriso bem largo no meu rosto, sorriso bem desenhado, e perguntei "Casar?! você é uma criança! nem sabe o que é casar, guri, não pode falar isso como se fosse uma coisa tão simples!" e ele, jeito moleque que tem, me disse com total segurança "se ela quisesse mesmo tomar outro rumo, sabendo de skate que ela sabe andar, teria feito outro rumo e não ter deixado eu tirar do pequeno transporte, mas sabia que no final da rua, eu iria empurrá-la para que ela caisse e nós dois pudéssemos fazer o nosso destino. No final eu a empurrei porque queria que ela não seguisse a direção em linha reta mas com curvas e comigo, porque no final da história, da cena, de tudo, doutor, quem faz as curvas não é destino, somos nós. E eu, hoje, mostrei que quem quero ao meu lado é aquela pessoa que se entrega ás minhas decisões e ás minhas burradas, vi que mesmo eu tendo a colocado numa arriscada, ela me aceitou no momento em que entreguei minha mão para ela e a mesma aceitou firmando uma união indireta, secreta e verdadeira comigo. Sei disso, doutor, porque se ela não quisesse minha ajuda, minhas mãos, meu toque, não teria aceitado minha ajuda, mesmo sabendo se levantar com os próprios pés." Meus olhos, meu caro amigo, no final desse pequeno discursso estava com tantas lágrimas que eu não pude conter o choro de tão orgulhoso e emocionado que estava. Aquelas duas pequenas figuras me mostraram o que eu não havia visto antes.
Perdi minha esposa por um belo d'um erro meu. E o que eu fiz? Nada. Eu podia mesmo ter feito o que fiz mas a empurrado do skate para que ela, ao cair no chão e ver a minha mão estendida em forma de carinho e ajuda, aceitasse meu gesto de amor. Mas o que eu fiz, amigo? Nada.
Naquele dia uma bela criança me mostrou que os pés que ele fez correr até atingir o alvo, a menina, foram mais rápidos que o seu coração pulsando no seu corpo. Atingiu a menina. Empurrou do skate. Ele ofereceu ajuda. Os dois se casaram formando um laço indestrutível, acredito eu, até o final da vida.
Sabe, meu caro amigo, ás vezes é bom você estender a mão mesmo quando as coisas não estão lá muito boas, porque no final a gente sabe que quando um 'tá' mal, o outro não fica mal desde que você estenda a mão, desde que você sorria, desde que você seja os pés que levantam a alma de uma lama na esquina de uma cidade perdida.
Finalmente meu caro amigo, acabo essa carta com tanta saudade que não sei como te descrever. Sinto saudades das nossas risadas, das suas conversas jovem no meu ouvido, das belas músicas que você me indicava. Como vai a esposa? Os filhos? Você?
E o skate?
Firmo e confirmo aqui meu saudoso abraço pro meu eterno guri de 10 anos
Do seu amigo de, finalmente, 60 anos.
Abraços.
(Texto feito por Nathália B.)